quarta-feira, 24 de julho de 2013

Quase não escrevo

“Quase morrer não muda nada, morrer muda tudo”, disse o misantropo Dr.House, em meio a resolução de casos impossíveis, dores na perna e crises pessoais sem fim. Há uns meses eu concordava plenamente com essa afirmação, mas hoje tenho certeza que a primeira frase está errada. Por mais que morrer mude tudo, o quase morrer é capaz de mudar muita coisa. Tenho certeza que mudou muita coisa pra mim. O ‘quase’ realmente dá um alívio em muitas situações, mas é também uma questão de parâmetro. Dizer que eu estava em segurança é bem mais reconfortante do que saber que eu quase morri. Foi por um pouco, não dá para ignorar isso. Se algo quase acontece, a gente passa a ter mais atenção pra que aquilo não chegue a acontecer. Inevitavelmente, passamos a questionar como seria se tivesse acontecido de fato. É uma experiência que evidencia o poder do acaso e nossa impotência diante dos fatos definitivos. Não tem como ignorar que aquele ‘quase’ quase não existiria. A morte está aí para todos, não foi dessa vez, mas será um dia. E agora? Imagino que morrer deva ser como receber uma anestesia geral e não voltar mais. Muda tudo para os que ficam; pra quem vai, deve ficar o vazio e o privilégio de não chorar pelo fim da própria vida. O olhar da minha mãe para minha imagem de quase morte foi bem diferente daquele que minha vida sempre recebeu. Deve ter mudado alguma coisa pra ela também. Concluí que, quando nos deparamos com uma situação de risco, vemos que seríamos capaz de enfrentar com alguma dignidade o fato se ele viesse realmente a ocorrer. Acaba sendo reconfortante saber que existiu o quase, mas também dá um frio na barriga por saber que se escapou por um triz e nasce uma urgência em aproveitar a sorte de ter mais uma chance para fazer a vida valer mais a pena, com a bênção do acaso. Pelo menos foi essa a impressão que essa fatídica experiência deixou para mim; ou quase isso.

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