segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
Preto no branco
Qual a sua raça? Se me perguntassem há algumas semanas, eu nem hesitaria em responder “negra”. Porém, diante de reflexões diversas acerca do tema, achei coerente rever minha posição. Para começar, o que estou definindo como raça? É prudente subdividir biologicamente uma espécie complexa como a nossa? O que devemos considerar para definir? Por que definir?
Para dar suporte à minha resposta de outrora, eu dizia que sou negra porque vejo em mim mais características da raça negra e, portanto, sentia-me mais confortável em me declarar como tal. Foi então que me veio a fatídica questão: ao me dizer negra, eu atestava que esta raça é mais forte ou mais fraca? Chamar um mestiço de negro é dar maior relevância ao fator negritude, que faz negro qualquer afrodescendente, ou dá maior relevância à historicamente enaltecida pureza da raça branca? É inevitável questionar até que ponto definir mestiços como negros traz o peso de séculos de uma história racista em detrimento de um movimento relativamente recente que valoriza e enaltece nossas raízes africanas.
É como acontece nos Estados Unidos, onde é considerada negra qualquer pessoa que tenha descendência da raça. A meu ver, é uma determinação bastante racista porque deixa subentendido que a raça branca requer pureza e a negra, não. Para haver uma justiça racial, ambas as raças deveriam ser tratadas com igualdade, necessitando haver ou não uma suposta pureza em todas. Ou seja, ou eu não sou branca, mas também não sou negra, ou então eu sou negra, branca e indígena, uma raça não excluindo a outra.
Já a perspectiva de raça enquanto discurso político traz à tona uma outra análise na qual a definição biológica é pouco relevante. Nesse caso, a autodeterminação racial já tem a ver com uma identificação com a ideologia sociopolítica ou com a luta de determinada raça, independente de qual seja. Sendo assim, eu poderia dizer que uma pessoa é branca por ela compactuar da ideia de acumular riquezas e bens, ou aceitar que alguém que respeita a natureza acima de tudo é indígena, não levando em conta a cor da pele dessas pessoas. Da mesma maneira que são negras as pessoas que não toleram qualquer maneira de subjugação de aspectos africanos, em resposta a um passado cruel de opressão racial.
Não devemos perder de vista que definir parâmetros adequados de justiça, liberdade e respeito é muito mais importante que definir raças. Se chegássemos ao ponto de ninguém se incomodar em definir raças e todos se vissem como iguais, aí poderíamos dizer que vivemos em uma democracia racial. Como não é o caso, já que a humanidade sempre cultivou o hábito de definir o outro e faz disso uma necessidade, é imprescindível estarmos atentos a fatores e situações que prenunciam um pensamento racista. E essa postura socialmente responsável só existe quando temos muita raça.
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