Desde muito nova eu tentava escrever letras de músicas. Parecia simples: eu escrevia em rimas todas as coisas lindas e poéticas que eu queria que todos ouvissem e alguém que soubesse tocar algum instrumento musical transformaria minhas estrofes em canção. No dia que soube que não era esse o caminho, achei tudo tão ilógico e inalcançável que resolvi deixar isso de lado. Como assim eu deveria compor uma música antes da letra? Não fazia sentido pra mim.
Para mim, ritmo, afinação, instrumentos e tudo mais eram só uma maneira de seduzir o ouvinte para a letra da música pegá-lo de jeito; afinal, era exatamente isso que sempre me acontecia quando eu ouvia Marisa Monte, por exemplo. Talvez, se eu estudasse música ou tocasse algum instrumento, fizesse mais sentido a beleza e a complexidade de criar uma música ignorando totalmente a letra. Até me aventurei aos doze anos de idade nas teclas do piano, sem muito sucesso, mas minha vivência real com a música sempre veio através da dança e de suas contagens quaternárias e ternárias.
Fazendo um paralelo com a dança, em particular com o balé clássico, seria como se a música fosse a composição coreográfica, enquanto a letra é o que a dança quer dizer. Sim, há muitas coreografias sem história e tem muitas coreografias que são criadas para que, só depois de prontas, recebam o título, o significado. Acredito que seja mais ou menos o mesmo raciocínio com a música. Então faz sentido, mas, ainda assim, não deixa de ser inquietante.
No caso da dança, quando trabalhamos a criação artística tendo em foco o que queremos dizer, ela já nasce com toda a carga emotiva necessária para comunicar essa fala. É muito bom poder falar, mesmo que a beleza da arte diga que não é necessário fazê-lo. A pintura e a arquitetura já falaram tantas coisas úteis, por que ainda há quem repreenda as pessoas que colocam a fala em primeiro plano em outras artes? Sim, pinturas que comunicam o incomunicável é interessante, mas olhar a coroação de Napoleão emoldurada traz um prazer indiscutível. E comunica.
Sei que não tenho muita prioridade para tratar desse tema, mas como hoje é Dia do Compositor, tomei a liberdade de fazê-lo. Talvez seja uma forma de expor meu desejo adormecido de escrever uma canção do nível de “Cecília”, do simpático compositor Luiz Cláudio Ramos com Chico Buarque. Ou talvez eu tenha enxergado partituras nas linhas do meu caderno. Vai saber.
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
terça-feira, 4 de outubro de 2011
Parece TPM, mas talvez seja um monstro que eu alimento. Um monstro que sempre confia na vitória da insegurança, que escancara a porta da frente para entrar triunfante, rindo-se da minha fraqueza reincidente.
Ele sabe que sua presença me oprime, me faz chorar, me paraliza e angustia. Basta ele chegar que eu perco o sorriso e a canção da minha vida ganha tons mais graves. Não me lembro desde quando eu desisti de lutar contra ele; isso se eu realmente já lutei algum dia. Recordo-me das tantas vezes nas quais eu deitei em lágrimas e sentei em mármore, devido ao peso dele sobre minhas costas. Lembro-me apenas de uma existência questionada e de uma ausência inquestionável. Lembro da angústia de estar perdida e de me encontrar caída nas linhas de uma folha de caderno, que, infelizmente, nunca foi a cura.
É uma dor que não entendo, muito menos explico. Mas dói. É um peito cheio de vazio. É menosprezar a vida pensado se a morte traria a força pra fazer parar a dor. Mesmo sabendo que o tempo é o fiel aliado da vida. Porque o eterno pode durar um segundo; mas tem vezes que um segundo é o bastante para nos jogar no chão.
Ele sabe que sua presença me oprime, me faz chorar, me paraliza e angustia. Basta ele chegar que eu perco o sorriso e a canção da minha vida ganha tons mais graves. Não me lembro desde quando eu desisti de lutar contra ele; isso se eu realmente já lutei algum dia. Recordo-me das tantas vezes nas quais eu deitei em lágrimas e sentei em mármore, devido ao peso dele sobre minhas costas. Lembro-me apenas de uma existência questionada e de uma ausência inquestionável. Lembro da angústia de estar perdida e de me encontrar caída nas linhas de uma folha de caderno, que, infelizmente, nunca foi a cura.
É uma dor que não entendo, muito menos explico. Mas dói. É um peito cheio de vazio. É menosprezar a vida pensado se a morte traria a força pra fazer parar a dor. Mesmo sabendo que o tempo é o fiel aliado da vida. Porque o eterno pode durar um segundo; mas tem vezes que um segundo é o bastante para nos jogar no chão.
terça-feira, 15 de março de 2011
Não curti
Agora há pouco, vi no meu facebook a mensagem de um pai dizendo que a febre da filha havia voltado e ele levou a pequena para a emergência, com direito a foto da entrada do hospital e tudo. E muitos interagiram com o pai exibicionista: “melhoras”, “não se preocupe” e até “a emergência desse hospital não é das melhores...”. Todos muito expostos e atuantes, criando algo como um BBB pessoal com filtros bem duvidosos e edições mais duvidosas ainda. Qual o ponto disso tudo?
Mesmo tendo bastante tempo de vivência com a internet e todos os aparatos tecnológicos que surgiram para servi-la, ainda estranho a forma como as pessoas a utilizam. Penso no tempo que perdemos expondo fatos que deveriam interessar só a nós. E talvez seja esse o problema: deveria, mas há muitos que se interessam, e pelos mais variados motivos.
Essa semana, uma amiga comentou sobre uma conhecida que postou fotos de uma suíte de motel muito luxuosa. Ela e o namorado foram comemorar o aniversário de namoro e julgaram apropriado expor esse momento íntimo para pessoas que nada tem a ver, como essa minha amiga, que salientou achar um desperdício tirar fotos ao invés de aproveitar a estadia. E é isso que acontece ao nos expormos: há aplausos, criticas e até vaias, mas ninguém sai ileso. A vida já nos impõe exposições constantes, qual a razão de buscarmos mais ainda?
Claro que não sou uma eremita que foge da convivência social, seja online ou não, mas acredito piamente que para tudo há um limite. Adoro compartilhar links que curto e passar adiante frases bacanas, emails e vídeos de humor: é como aquele instante no colégio em que batemos papo em grupo, rindo juntos; a diferença é que agora rimos para telas dos mais variados tamanhos. Ainda assim, é um momento saudável de socialização, mas que, repito, deve ter limites.
Comunicação é importante, mas há fatos e fotos que só interessam a nós e devemos impor isso aos curiosos de plantão; é uma forma prática de dar algum limite. Por isso, faço agora um simples apelo: pais, levem, sim, suas filhas para a emergência e torçam em família para que ela fique logo boa, mas, com certeza, a energia que ela precisa é muito mais quente e real do que alguns bits superficiais na rede mundial de computadores.
Mesmo tendo bastante tempo de vivência com a internet e todos os aparatos tecnológicos que surgiram para servi-la, ainda estranho a forma como as pessoas a utilizam. Penso no tempo que perdemos expondo fatos que deveriam interessar só a nós. E talvez seja esse o problema: deveria, mas há muitos que se interessam, e pelos mais variados motivos.
Essa semana, uma amiga comentou sobre uma conhecida que postou fotos de uma suíte de motel muito luxuosa. Ela e o namorado foram comemorar o aniversário de namoro e julgaram apropriado expor esse momento íntimo para pessoas que nada tem a ver, como essa minha amiga, que salientou achar um desperdício tirar fotos ao invés de aproveitar a estadia. E é isso que acontece ao nos expormos: há aplausos, criticas e até vaias, mas ninguém sai ileso. A vida já nos impõe exposições constantes, qual a razão de buscarmos mais ainda?
Claro que não sou uma eremita que foge da convivência social, seja online ou não, mas acredito piamente que para tudo há um limite. Adoro compartilhar links que curto e passar adiante frases bacanas, emails e vídeos de humor: é como aquele instante no colégio em que batemos papo em grupo, rindo juntos; a diferença é que agora rimos para telas dos mais variados tamanhos. Ainda assim, é um momento saudável de socialização, mas que, repito, deve ter limites.
Comunicação é importante, mas há fatos e fotos que só interessam a nós e devemos impor isso aos curiosos de plantão; é uma forma prática de dar algum limite. Por isso, faço agora um simples apelo: pais, levem, sim, suas filhas para a emergência e torçam em família para que ela fique logo boa, mas, com certeza, a energia que ela precisa é muito mais quente e real do que alguns bits superficiais na rede mundial de computadores.
quarta-feira, 2 de março de 2011
Cada corpo é um mundo
Eu vi um corpo no caminho. Na verdade, não vi, ele estava guardado em um tipo de capa, no chão. Policiais em volta, armados, um carro da polícia parado no fim do viaduto. E lá jazia o corpo, sem vida ou atenção. Era apenas mais um corpo para os policiais, calejados de crimes e tragédias. Provavelmente estavam pensando no jantar, no banho ou no jogo que talvez fosse passar; não na existência que já não havia aos pés deles.
Era apenas mais uma vida que ia, como outras bilhões ou trilhões que já se foram ao longo dos tempos. Mas cada vida é única, aquela era um universo, e deve ser o mundo de outras pessoas, de uma mãe ou um filho. Era um mundo que findava, aos pés dos homens armados, à indiferença ou curiosidade dos que passavam. Para muitos era um corpo que quebrava o tédio, que posava no chão atrevido, atrapalhando a passagem, dando trabalho, alterando a vivacidade do ar. Como ousa morrer em plena segunda-feira, em horário de pico? Quem será? Quando iriam saber que já não estava mais por aqui, vivendo? Quem sentiria falta, o mundo de quem estaria prestes a ruir?
A morte em si é um limite cruel, uma lembrança de um fim contra o qual tentamos fugir, mas cujo encontro com ele é tão certo quanto a vida. Recordamos que um dia é nossa hora e não temos controle sobre isso. Pensamos na hora em que alguma morte vai nos matar em vida, em alguma perda absurdamente dolorosa a qual talvez tenhamos que enfrentar ou enlouquecer.
Penso então no absurdo da vida, tão cheia de tudo, mas igualmente efêmera. Ela nos escapa e não nos damos conta, tudo está passando, cada um indo embora levando seus mundos e mundos alheios. Passo próximo ao viaduto 20 minutos depois, mas não tem mais corpo nem policiais. Nem parecia que um mundo havia acabado, bem ali, no asfalto.
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Palavras e silêncio
Uma mentira dita cem vezes torna-se verdade. Não concordo com essa afirmação, ainda que ela já tenha sito dita muito mais de cem vezes; mas acredito que as palavras têm força e ganham força quando reproduzidas. Essa afirmação de Goebbels não se tornou verdadeira com a repetição mas é forte, tanto que continua se repetindo até hoje.
Palavras representam e significam. Opiniões, pensamentos, histórias e ideias são intangíveis e precisam aparecer para serem reais. Quando proferimos um discurso, estamos concretizando-o naquele instante. Caso queiramos enfraquecer algo, basta não dar corpo a ele. Se te disseram algo com o qual você não concorda, não repita o que foi dito.
Da mesma maneira que não comemos qualquer coisa e nem damos porcaria para comerem, deveríamos fazer o mesmo com as palavras. Fale com cautela e tenha cuidado com o que você se propõe a ouvir. As palavras afetam e, ao meu ver, tudo fica mais forte quando ganha os ares, da mesma forma que os pensamentos têm poder e movem o universo. Ainda que apenas o nosso universo privativo.
Somos resultado do que internalizamos. Do momento em que somos concebidos até o instante atual, somos o que apreendemos em nós. Falo desde a informação genética que prevaleceu até um sussurro ouvido pouco antes de acordar; a parte que ficou em nós nos compõe e então somos capazes de nos reconstruir a cada instante. E boa parte de nós é construída pela comunicação.
Muitas vezes não percebemos o poder que as palavras têm, até que um dia ouvimos algo que nos devasta, ou nos pegamos falando e acreditando piamente em algo que sempre ouvimos nossos pais falarem. Acredito sim que somos livres para falar e ouvir o que quisermos, mas acredito ainda mais no peso das palavras proferidas e na responsabilidade que cada um de nós tem em fazê-lo. Cuide para que suas palavras não sejam levianas; elas são tão poderosas quanto um soco na cara ou um beijo na boca.
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Licença-paixão
O mundo não para quando estamos apaixonados. Mas deveria. A paixão faz o tempo enlouquecer: uma hora vira quinze minutos na presença dele, mas os cinco minutos para encontrá-lo viram meia hora em um passe de mágica. As horas vagas na mente se multiplicam, e cada detalhe preenche facilmente aquele espaço vago que criamos especialmente para ele.
Deveria existir a licença-paixão. Assim, os apaixonados teriam o direito de escolher um dia para esgotar o corpo de pensamentos e bobeiras típicas desse estado de espírito tão único e agradável. Um dia para amenizar os efeitos das borboletas indo e vindo no estômago, dos risos bobos, dos abraços sem fim, dos cheiros, gostos e calores. Um dia livre de tudo, cheio do nada típico das paixões.
Porque quando estamos apaixonados, não nos importamos se o mundo vai acabar. Mas só não pode acabar agora. A não ser que seja ao lado dele, transformando em eternos os últimos instantes, suspendendo o fim. Quando há paixão, esquecemos até de nós mesmos. Perdemos noites às vésperas de uma reunião importante, deixamos de ir para uma tremenda festa só para ficar horas de bobeira ao lado dele, ficamos perdidos relendo uma mensagem de celular e nos achamos rindo quando falamos dele.
A paixão cria um mundo à parte. Um mundo no qual cabe a insolência de usar um hidratante com cheiro de chiclete para ele ficar com o cheiro na pele depois. Um mundo onde se fala pertinho, olhando nos olhos, fazendo carinhas e beijando um sinal, uma sarda ou uma tatuagem. A paixão cria um mundo individualista, que não liga pro mundão que o rodeia, já que este tem a audácia de continuar girando. A paixão cria um mundo infinito, mas que nele só cabe um par.
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