terça-feira, 15 de março de 2011

Não curti

Agora há pouco, vi no meu facebook a mensagem de um pai dizendo que a febre da filha havia voltado e ele levou a pequena para a emergência, com direito a foto da entrada do hospital e tudo. E muitos interagiram com o pai exibicionista: “melhoras”, “não se preocupe” e até “a emergência desse hospital não é das melhores...”. Todos muito expostos e atuantes, criando algo como um BBB pessoal com filtros bem duvidosos e edições mais duvidosas ainda. Qual o ponto disso tudo?

Mesmo tendo bastante tempo de vivência com a internet e todos os aparatos tecnológicos que surgiram para servi-la, ainda estranho a forma como as pessoas a utilizam. Penso no tempo que perdemos expondo fatos que deveriam interessar só a nós. E talvez seja esse o problema: deveria, mas há muitos que se interessam, e pelos mais variados motivos.

Essa semana, uma amiga comentou sobre uma conhecida que postou fotos de uma suíte de motel muito luxuosa. Ela e o namorado foram comemorar o aniversário de namoro e julgaram apropriado expor esse momento íntimo para pessoas que nada tem a ver, como essa minha amiga, que salientou achar um desperdício tirar fotos ao invés de aproveitar a estadia. E é isso que acontece ao nos expormos: há aplausos, criticas e até vaias, mas ninguém sai ileso. A vida já nos impõe exposições constantes, qual a razão de buscarmos mais ainda?

Claro que não sou uma eremita que foge da convivência social, seja online ou não, mas acredito piamente que para tudo há um limite. Adoro compartilhar links que curto e passar adiante frases bacanas, emails e vídeos de humor: é como aquele instante no colégio em que batemos papo em grupo, rindo juntos; a diferença é que agora rimos para telas dos mais variados tamanhos. Ainda assim, é um momento saudável de socialização, mas que, repito, deve ter limites.

Comunicação é importante, mas há fatos e fotos que só interessam a nós e devemos impor isso aos curiosos de plantão; é uma forma prática de dar algum limite. Por isso, faço agora um simples apelo: pais, levem, sim, suas filhas para a emergência e torçam em família para que ela fique logo boa, mas, com certeza, a energia que ela precisa é muito mais quente e real do que alguns bits superficiais na rede mundial de computadores.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Cada corpo é um mundo

Eu vi um corpo no caminho. Na verdade, não vi, ele estava guardado em um tipo de capa, no chão. Policiais em volta, armados, um carro da polícia parado no fim do viaduto. E lá jazia o corpo, sem vida ou atenção. Era apenas mais um corpo para os policiais, calejados de crimes e tragédias. Provavelmente estavam pensando no jantar, no banho ou no jogo que talvez fosse passar; não na existência que já não havia aos pés deles.

Era apenas mais uma vida que ia, como outras bilhões ou trilhões que já se foram ao longo dos tempos. Mas cada vida é única, aquela era um universo, e deve ser o mundo de outras pessoas, de uma mãe ou um filho. Era um mundo que findava, aos pés dos homens armados, à indiferença ou curiosidade dos que passavam. Para muitos era um corpo que quebrava o tédio, que posava no chão atrevido, atrapalhando a passagem, dando trabalho, alterando a vivacidade do ar. Como ousa morrer em plena segunda-feira, em horário de pico? Quem será? Quando iriam saber que já não estava mais por aqui, vivendo? Quem sentiria falta, o mundo de quem estaria prestes a ruir?

A morte em si é um limite cruel, uma lembrança de um fim contra o qual tentamos fugir, mas cujo encontro com ele é tão certo quanto a vida. Recordamos que um dia é nossa hora e não temos controle sobre isso. Pensamos na hora em que alguma morte vai nos matar em vida, em alguma perda absurdamente dolorosa a qual talvez tenhamos que enfrentar ou enlouquecer.

Penso então no absurdo da vida, tão cheia de tudo, mas igualmente efêmera. Ela nos escapa e não nos damos conta, tudo está passando, cada um indo embora levando seus mundos e mundos alheios. Passo próximo ao viaduto 20 minutos depois, mas não tem mais corpo nem policiais. Nem parecia que um mundo havia acabado, bem ali, no asfalto.