domingo, 6 de dezembro de 2015
Mal traçada
Após tanta vida, como falar de
amor? Na teoria, no entendimento romântico de outrora, era tudo muito diferente
do que vivi e vivo. O campo da ideação me transbordava de certezas tão abstratas
que, lembrando-me hoje, parece que aconteceu em outra vida. Parece que eu era
outra pessoa também. Construída de devaneios possíveis, mas mal traçados. Um
sentimento puro, que transfigurava o acaso em encantamento, o destino, em
linhas já traçadas. Não havia como escapar do tudo maravilhoso que havia sido
feito sob medida para mim. Mas os traços eram na verdade uma linha. Eu
precisava pegar uma agulha e fixar o caminho da linha. Quantos pontos faria e
qual a firmeza que teria em cada passagem da linha cabiam a mim. Não estava
perfeita a linha: estava solta sobre a pano. Eu teria que coser se quisesse um
caminho. Mas preferi deixar a costura por fazer. Os ajustes no pano ficaram
pendentes e eu achava que era parte do jogo. Algo incompleto que, no fim e
magicamente, caberia em mim. Mas não é bem assim. Hoje vejo que, em se tratando
de amor, sempre fica algo por ajustar. Mas a essa altura já perdi a linha. O
jeito é me manter vestida, mesmo com as medidas erradas. Ou então me despir de
uma vez.
sábado, 1 de agosto de 2015
Do tronco ao poste
A questão social tem bastante peso em como o Brasil é hoje. A criminalidade que nos atinge mais visivelmente tem raízes na escravidão e de como ela foi abolida. Pobreza e falta de dignidade criam pessoas que não dão valor à própria vida; como esperar que elas deem algum valor à vida de qualquer outra pessoa? Ademais, não cabe a ninguém fazer justiça com as próprias mãos, por mais revoltante que seja presenciar um crime. O Estado está aí pra isso. Se não amarram corruptos poderosos em postes, então só posso achar que amarrar bandidos pés-rapados tem mais a ver com covardia do que com a sede por justiça. E outra: o que é crime ou não é questão de poder, não se iludam achando que é uma questão certinha, com a qual todos concordam.
Há pouco mais de um século, muitos escravos eram vistos como marginais, ainda mais que vários deles furtavam e tentavam assassinar seus senhores sempre que tinham a chance. Na época, isso era um crime punido com morte, não existia a ideia de que o escravo estava sendo abusado, espancado e que era humano se defender dos horrores da escravidão; o preto era criminoso e fim de papo. Mata. A menos que alguém entendesse que ele valia mais vivo por conta de quanto se pagou por ele (isso depois da proibição do tráfico, segunda metade do século XIX, deixando o escravo mais difícil de se conseguir). Ou seja, há uma semelhança de como a população olha o bandido marginalizado e como olhavam o escravo, que também se enquadrava, na visão da época, como um bandido marginalizado. Nasceu preto, sinto muito por ele, vai ser escravo e não pode se revoltar contra seus algozes.
Não mudou muito. E antes que falem das exceção, de pessoas resilientes que conseguem ser diferentes das que estão naquele ambiente, elas também existiam na época da escravidão, mas nem por isso a escravidão era correta ou justa. Pena que a maioria das pessoas não param para refletir acerca do tema, ou então preferem ficar no senso comum raso ao invés de exercitar o senso crítico.
Há pouco mais de um século, muitos escravos eram vistos como marginais, ainda mais que vários deles furtavam e tentavam assassinar seus senhores sempre que tinham a chance. Na época, isso era um crime punido com morte, não existia a ideia de que o escravo estava sendo abusado, espancado e que era humano se defender dos horrores da escravidão; o preto era criminoso e fim de papo. Mata. A menos que alguém entendesse que ele valia mais vivo por conta de quanto se pagou por ele (isso depois da proibição do tráfico, segunda metade do século XIX, deixando o escravo mais difícil de se conseguir). Ou seja, há uma semelhança de como a população olha o bandido marginalizado e como olhavam o escravo, que também se enquadrava, na visão da época, como um bandido marginalizado. Nasceu preto, sinto muito por ele, vai ser escravo e não pode se revoltar contra seus algozes.
Não mudou muito. E antes que falem das exceção, de pessoas resilientes que conseguem ser diferentes das que estão naquele ambiente, elas também existiam na época da escravidão, mas nem por isso a escravidão era correta ou justa. Pena que a maioria das pessoas não param para refletir acerca do tema, ou então preferem ficar no senso comum raso ao invés de exercitar o senso crítico.
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