terça-feira, 31 de maio de 2016

Caiam mil homens à tua esquerda e dez mil à tua direita, tu não serás atingido.
Porém verás com teus próprios olhos, contemplarás o castigo dos pecadores,


No instante em que meu irmão me chamou a atenção para o absurdo dessa passagem da Bíblia, eu agradeci a Deus por ser ateia. Afinal, esse Deus é piedoso, como tantos dizem, ou é um sádico?
Penso que os discursos só são realmente eficientes quando falam algo que a pessoa gostaria ou de ter dito ou de ouvir. No primeiro caso, há uma identificação, e geralmente a fala traz alguma verdade com a qual a pessoa acaba se identificando. Já o segundo caso é apenas a resposta para alguma predisposição do indivíduo. Na prática, é quando alguém precisa de dinheiro e ouve que a solução é um negócio incrível, fácil e do qual ele tem a sorte de poder fazer parte, mediante um pequeno investimento. É o pressuposto de muitos golpes que, mesmo sendo de conhecimento geral, seguem bem-sucedidos.
A meu ver, o trecho em epígrafe traz exatamente o segundo caso, já que ele se apega a três traços presentes em muitas pessoas: egocentrismo, sadismo e individualismo. Dizer que “tu não serás atingido” é uma massagem para o ego, já que coloca a pessoa como alguém especial; já “contemplarás o castigo dos pecadores” eleva a pessoa a uma posição superior o bastante para fazer da contemplação dos castigados um prazer legítimo; e o individualismo está em se deleitar com o fato de não ser atingido, mesmo sabendo que 11 mil irmãos cairão ao seu redor.
Como alguém é capaz de ficar feliz com uma situação grotesca dessa? Creio que seja por serem pessoas que querem uma recompensa ao abrir mão de uma vida sem “pecados”. Talvez os prazeres de seguir as regras cristãs não bastem, já que “a palavra” precisa reforçar que uma ação diversa leva à ruína. Argumento clássico usado entre homens: se não vai pelo amor, então que seja pela dor ou pelo temor.
Ver um Deus que deveria ser puro amor e perdão trazer uma colocação dessa em sua obra sagrada só reforça minha crença na sua inexistência. Sendo assim, apenas me resta concluir que esta obra nada mais é do que um livro feito por humanos e para cativar humanos; mas só mesmo aqueles com pouca clemência.

Um dia feliz

Alguns dias são tão perfeitos que fazemos de tudo para que eles não terminem. E nem falo daqueles dias marcantes, como um nascimento ou um primeiro encontro. Falo dos dias comuns em que tudo resolve dar certo. É justamente nesses dias que saímos da rotina com uma leveza tão natural que qualquer coisa que esteja por vir faz total sentido.
Nesses dias inspiradores os semáforos se abrem na hora exata em que passamos, o cabelo resolve exagerar no capricho e os abraços vêm de quem menos esperamos. Um amigo que você decidiu deixar de lado aparece e enche seu mundo de confiança. Então de repente você está no meio de algo que tanto quis, mas que não sabia ainda que tanto queria. Do nada uma conversa gostosa com um desconhecido encanta, e o diálogo é tão sintonizado que vocês acabam se reconhecendo como velhos amigos.
De repente, o rapaz dos correios finalmente aparece com as encomendas que você nem se lembrava mais que fez, com direito a um lindo batom de brinde; tão lindo que você pensa seriamente em usar batom no dia a dia, contrariando uma secular preferência pela cor natural da boca.
Por que não congelar esse dia? Como fazer para guardar tal atmosfera mágica, cheia de encantos e predisposta a acertos? Simplesmente não dá, só é possível tirar proveito de cada instante. Esse dia passa, mas outros como este hão de vir, só precisamos de leveza e serenidade para aguardá-los. Enquanto eles não vêm - lembrando que eles só vêm espontaneamente, não adianta forçar - o ideal é saber aproveitar também os encantos dos dias menos mágicos, sem neuras. Meia-noite: hora de deixá-lo ir.

terça-feira, 3 de maio de 2016

1144km

Queria poder mexer no tempo e no espaço para ter você comigo agora. Queria um beijo seu, um abraço, um riso, um olhar mais demorado. Queria de volta a magia do tempo que congela para sermos só nós dois. Quero um reencontro eterno e uma partida que nunca venha.

Mas você teve que partir, voltar para o país dos seus compromissos. A propósito, o que dizer de um lugar que não conheço, mas do qual já gosto tanto? Sei que ele guarda você, e isso já me basta. É nele que você segue rindo, trabalhando e lembrando dos nossos dias juntos. Há um pedaço meu por perto. Isso me conforta.

Olho fotos das ruas e me imagino por lá com você. Finjo que não tem neve nem frio, então meu devaneio fica ideal. De mãos dadas ou entrelaçada no seu abraço, vejo tudo como deve ser. Ouço sons, então sorrio para o nada e para tudo. Devem ser os pássaros. Você diz que não são elas, mas insisto: quem nasce lá são mesmo as andorinhas.