quarta-feira, 24 de julho de 2013

Faro para amar - Uma história verídica

Aconteceu em uma das províncias de Brotas, uma daquelas que não têm um nome seguido do sobrenome “de Brotas”. Uma jovem cadela fora abandonada como se nada fosse; para piorar, estava muita machucada, com queimadura de óleo, e prenha. Pariu pela rua mesmo, sozinha, como manda seu instinto. Inevitavelmente, aprendeu a ser bem feroz para que não judiassem mais dela, muito menos da sua cria. Os moradores dos imóveis próximos à praça na qual a mãe solteira sobrevivia até ficaram comovidos ao verem os quatro lindos filhotes daquela fera indomável, mas ninguém queria ter posse de uma cadela tão feia e raivosa. Até que certo dia Carlos, um cidadão brotense de boa índole, resolveu levar uma vasilha cheia de comida para cadela, mas, em um instante de desespero e confusão, a resposta do animal foi uma abocanhada impiedosa. Se gato escaldado tem medo de água fria, imagina uma cadela maltratada e recém-parida. Carlos, senhor manso e bondoso, engoliu a dor e reconheceu que foi imprudência ter chegado tão perto de uma mãe de primeira viagem ainda amamentando. Apesar do perdão concedido, os vizinhos e amigos de Carlos ficaram enfurecidos com a agressão daquele monstro de quatro patas. Foi então que um deles, querendo bancar o justiceiro, tomou todos os filhotes da pobre cadela e os levou só Deus sabe para onde. Os que sabiam do caso ficaram inconformados, ainda mais vendo que a dor daquele ser, inacreditavelmente, tinha ficado ainda maior. Ela continuava vivendo na praça, enfurecida, numa busca estéril pela sua prole perdida. Como a cadela estava cada vez mais agressiva, outro morador de Brotas, que era adestrador de cães, resolveu levá-la para outro lugar, já que muitas crianças passavam pela praça e, caso alguma delas resolvesse se aproximar do animal, poderia ocorrer algum incidente bem grave. Levou-a para um lugar relativamente longe, em outra extremidade de Brotas. Com a leveza de ter resolvido um problema, o rapaz foi para a praça observar como a ausência da fera deixava tudo melhor. Porém, no dia seguinte, tamanha foi a surpresa dele e de muitos moradores ao perceberem que a cadela estava de volta, exausta da caminhada e bem triste, farejando tudo que era canto, ainda na esperança de encontrar nem que fosse apenas um dos seus filhos. Vencidos, os brotenses resolveram deixar que a criatura seguisse sua sina em paz. Foi pouco tempo depois, entre uma farejada e outra, que o olhar da cadela encontrou o de uma senhora que pouco saía a pé por aquelas bandas. A senhora, dona Valéria, com seu olhar sensível e iluminado, enxergou a bela que havia naquela fera e, sem hesitar, resolveu que a cadela se chamaria Pretinha e seria muito amada. Sem medir esforços, levou sua nova amiga para o veterinário e cuidou dela com muito carinho. O amor salvou Pretinha daquela tristeza e sofrimento crônicos e curou suas feridas de fora e de dentro. Foi sendo amada que ela aprendeu a amar e ficou muito linda; tão linda quanto o amor de dona Valéria.

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