domingo, 6 de dezembro de 2015
Mal traçada
Após tanta vida, como falar de
amor? Na teoria, no entendimento romântico de outrora, era tudo muito diferente
do que vivi e vivo. O campo da ideação me transbordava de certezas tão abstratas
que, lembrando-me hoje, parece que aconteceu em outra vida. Parece que eu era
outra pessoa também. Construída de devaneios possíveis, mas mal traçados. Um
sentimento puro, que transfigurava o acaso em encantamento, o destino, em
linhas já traçadas. Não havia como escapar do tudo maravilhoso que havia sido
feito sob medida para mim. Mas os traços eram na verdade uma linha. Eu
precisava pegar uma agulha e fixar o caminho da linha. Quantos pontos faria e
qual a firmeza que teria em cada passagem da linha cabiam a mim. Não estava
perfeita a linha: estava solta sobre a pano. Eu teria que coser se quisesse um
caminho. Mas preferi deixar a costura por fazer. Os ajustes no pano ficaram
pendentes e eu achava que era parte do jogo. Algo incompleto que, no fim e
magicamente, caberia em mim. Mas não é bem assim. Hoje vejo que, em se tratando
de amor, sempre fica algo por ajustar. Mas a essa altura já perdi a linha. O
jeito é me manter vestida, mesmo com as medidas erradas. Ou então me despir de
uma vez.
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