sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Ficam os anéis

Estações do ano bem definidas. Não entendia ao certo do que se tratava, mesmo assim escrevia com convicção para conseguir pontos nas avaliações de geografia. Mas, de todas essas definições, a que menos despertava meu interesse e não explicava muita coisa era o outono. Qual a graça de folhas secas que caem e sujam tudo?

Como há pouco mais de um ano esse ciclo climático faz parte de minha vida, consigo ver que há muito mais do que isso no outono. Não é apenas o aumento gradual do frio que vai inviabilizando a permanência das folhas. Nem são quedas aleatórias que transformam as fibras folhosas em adubo. Na verdade, é a metáfora mais bela das estações.

Para mim, é o entendimento da natureza de que, em uma dada altura, é necessário se despir para enfrentar climas adversos. É ter a convicção de que a força das nossas estruturas continua capaz de fazer algo belo, ainda que apenas meses depois. Muito mais belo, na verdade, já que o tempo (ah, o tempo), sempre nos faz maiores.

E a beleza cresce. O tronco ganha mais um anel, as raízes fincam mais profundamente. Surgem mais galhos e bifurcações capazes de exibir mais beleza. Enquanto há vida, é assim que se segue. São batalhas vencidas com flores.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Meridiamar

Não estamos apenas distantes no espaço, estamos no tempo também. Bem verdade que se trata de somente uma hora, a menor diferença fuso horária possível. Mas ainda assim, é tão cheia de significados essa distância. Se antigamente alguém me dissesse estar a uma hora de distância, eu prontamente perguntaria “de carro ou a pé?”.

Mas agora meu contexto mudou. Quanto penso que estou a uma hora de distância de você, entendo que, mesmo acordando mais cedo, posso despertar depois de você. Voltar na última hora do dia é saber que, para você, já é o dia seguinte; se você já não estivesse dormindo, perguntaria se o dia vindouro lhe parece bom. Quando me dá fome um tempo depois do meio dia, só me resta perguntar se seu almoço estava bom, já que quase nunca penso em comida a tempo de lhe desejar bom almoço.

São pequenas coisas, mas que me marcam sempre que me atento a elas. E me lembram que a distância temporal também tem a ver com esperas. Esperar o próximo feriado, o próximo ônibus, o próximo avião. Para então ficarmos bem próximos, o máximo de tempo possível.

Então, de repente, o tempo pirraça e resolve passar mais rápido do que deveria. O lugar no tempo que nos pertence fica no passado. E voltamos a ficar a uma hora de distância. Exatamente uma hora. De carro ou a pé?

terça-feira, 13 de setembro de 2016

De 28 a 28

Sim, naquele dia me senti a pessoa mais triste do mundo. Andei pelos aeroportos com uma dor imensa no peito. Por mais que eu tenha tido todo o cuidado em sentir sua pele a todo instante, ter feito o máximo para guardar comigo cada pedaço seu, cada expressão, cada olhar e cada beijo, naquele instante nada disso foi suficiente para cessar a tristeza. Você não estava ali ao meu lado, segurando minha mão, falando baixinho. Foi tão difícil aceitar isso. Ainda é. Por mais que nosso contato diário aqueça imensamente meu coração e me cause risos bobos, nada se compara a seus abraços.
Até então, minha melhor saída tem sido relembrar, tentado reviver; entrar sempre em contato, tentando sentir sua presença; e escrever, como forma de eternizar tantas sensações presentes e pretéritas, ainda que, estas, imperfeitas. Pois não há lembrança que se compare ao presente que tivemos juntos. Então sigo, ansiosa, pensando no nosso próximo encontro, o lugar no tempo que nos pertencerá em breve.
Meu consolo é que, em um outro futuro não muito distante, teremos dias sem fim, daqueles sem contagens regressivas. Que nos dão o luxo de gastar horas com amenidades. Dias que, de tanto juntos, não fará mal deixar que outras pessoas e fatos fiquem com um pouco da nossa atenção. Então teremos outras ocupações, preocupações, metas e planos. Mas, enfim, plenos. Acho que é isso que importa.

terça-feira, 26 de julho de 2016

Sobre nós

Confesso que atualmente tenho uma grande dificuldade em dizer que amo alguém. Independentemente do quanto eu ame. Cheguei a ter alguns conflitos quando desconfiei que talvez eu fosse uma pessoa incapacitada para o amor. Mas isso não fazia sentido quando me via louca por alguém, desejando conseguir o mundo para fazê-lo sorrir. Então me permiti aceitar que amo, que tenho a capacidade de construir o amor dentro de mim e entregá-lo com zelo, da melhor forma que posso.
Mas um dia vi o amor fazer mal; foi quando descobri, na prática, que ele pode acabar. Há os que digam que nunca foi amor, que ele não acaba. Mas prefiro ficar com os dizeres de Vinícius de Moraes e entender que é infinito enquanto dura, mas não é eterno. Creio que essa teoria acerca do amor sem fim se baseie nos casos em que as pessoas deixam de se amar, mas fingem que se amam, ou quando, por razões alheias a alguma das vontades, o amor deixa de ser praticado. Sim, porque para mim amor é prática, é contato, dedicação e entrega. Então, quando o amor não completa o seu ciclo natural, cuja duração é imprevisível, ele pode persistir defeituoso e ter uma sobrevigência, como se eterno fosse. E esse período de sobrevigência, que é uma das coisas mais tristes de se ver, pode machucar bastante. Por isso passei a ter mais cautela em anunciar meu amor.
Com você, reconheço esse sentimento há algum tempo. E digo várias vezes em minha cabeça “eu te amo”. Chamo você de “amor” e “meu amor” em pensamento incontáveis vezes. Mas escrevo “lindo”, “meu bem” ou “xuxu”. Estamos longe, então tenho medo de não ser bem assim. De eu estar enganada ou de nossas circunstâncias estabelecerem um prazo curto para o amor que acredito sentir. E quero te ver feliz; a ideia de te decepcionar ou te magoar acaba comigo. Todos os dias que digo para você ir para cama me lembram que preciso ser responsável. Então aguardo para lhe dizer somente em sonho sobre esse amor. Pelo menos por enquanto.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

5,57 semanas

Nós nos conhecemos em Coimbra, nos beijamos em Porto e fizemos amor em Barcelona. Se o Velho Continente soubesse o quanto temos percorrido e quanto mais estamos dispostos a percorrer para nos vermos, iria se sentir tão jovem, tão desbravado e em paz. Porque o amor tem dessas de acalmar e modificar o tempo e o espaço.

Nosso reencontro será em Bordeaux, o seu lar. Tenho cá minhas expectativas e temores, mas sei que do nosso jeito não tem como dar errado. Seu carinho e preocupação comigo, misturados com o desejo natural de compartilhar o lugar que faz parte de você, são a fórmula inicial perfeita. Quanto a mim, creio que estar aberta a suas impressões, além da saudade que não me cabe mais no peito, já faz desse passeio a dois uma aventura indescritível. Sei que será assim e, novamente, não saberemos como verbalizar tantas coisas que terão passado dentro de nós.

Sonho com seu riso, seu abraço, seu olhar, seu cheiro. Pele, toque, gosto, pelos. Imagino quantas coisas lindas e surpreendentes ainda ouvirei de você. O quanto vou aprender e entender ainda. Tantas mudanças acontecerão em mim. Estarei mesmo pronta para tantas festas e folias que darei dentro do meu coração? Estará você pronto para minhas festas? E para as suas?


Respondo-me que sim e sigo contando as semanas. Em breve, os dias e, em completa euforia nesses futuros instantes, as horas. Sim, é um martírio ficar assim, tão longe. Mas otimista que sou, vou buscando as vantagens. Acumular emoções e jogar tudo num papel é uma das que gosto mais. De resto, só mesmo o futuro poderá escrever.

terça-feira, 31 de maio de 2016

Caiam mil homens à tua esquerda e dez mil à tua direita, tu não serás atingido.
Porém verás com teus próprios olhos, contemplarás o castigo dos pecadores,


No instante em que meu irmão me chamou a atenção para o absurdo dessa passagem da Bíblia, eu agradeci a Deus por ser ateia. Afinal, esse Deus é piedoso, como tantos dizem, ou é um sádico?
Penso que os discursos só são realmente eficientes quando falam algo que a pessoa gostaria ou de ter dito ou de ouvir. No primeiro caso, há uma identificação, e geralmente a fala traz alguma verdade com a qual a pessoa acaba se identificando. Já o segundo caso é apenas a resposta para alguma predisposição do indivíduo. Na prática, é quando alguém precisa de dinheiro e ouve que a solução é um negócio incrível, fácil e do qual ele tem a sorte de poder fazer parte, mediante um pequeno investimento. É o pressuposto de muitos golpes que, mesmo sendo de conhecimento geral, seguem bem-sucedidos.
A meu ver, o trecho em epígrafe traz exatamente o segundo caso, já que ele se apega a três traços presentes em muitas pessoas: egocentrismo, sadismo e individualismo. Dizer que “tu não serás atingido” é uma massagem para o ego, já que coloca a pessoa como alguém especial; já “contemplarás o castigo dos pecadores” eleva a pessoa a uma posição superior o bastante para fazer da contemplação dos castigados um prazer legítimo; e o individualismo está em se deleitar com o fato de não ser atingido, mesmo sabendo que 11 mil irmãos cairão ao seu redor.
Como alguém é capaz de ficar feliz com uma situação grotesca dessa? Creio que seja por serem pessoas que querem uma recompensa ao abrir mão de uma vida sem “pecados”. Talvez os prazeres de seguir as regras cristãs não bastem, já que “a palavra” precisa reforçar que uma ação diversa leva à ruína. Argumento clássico usado entre homens: se não vai pelo amor, então que seja pela dor ou pelo temor.
Ver um Deus que deveria ser puro amor e perdão trazer uma colocação dessa em sua obra sagrada só reforça minha crença na sua inexistência. Sendo assim, apenas me resta concluir que esta obra nada mais é do que um livro feito por humanos e para cativar humanos; mas só mesmo aqueles com pouca clemência.

Um dia feliz

Alguns dias são tão perfeitos que fazemos de tudo para que eles não terminem. E nem falo daqueles dias marcantes, como um nascimento ou um primeiro encontro. Falo dos dias comuns em que tudo resolve dar certo. É justamente nesses dias que saímos da rotina com uma leveza tão natural que qualquer coisa que esteja por vir faz total sentido.
Nesses dias inspiradores os semáforos se abrem na hora exata em que passamos, o cabelo resolve exagerar no capricho e os abraços vêm de quem menos esperamos. Um amigo que você decidiu deixar de lado aparece e enche seu mundo de confiança. Então de repente você está no meio de algo que tanto quis, mas que não sabia ainda que tanto queria. Do nada uma conversa gostosa com um desconhecido encanta, e o diálogo é tão sintonizado que vocês acabam se reconhecendo como velhos amigos.
De repente, o rapaz dos correios finalmente aparece com as encomendas que você nem se lembrava mais que fez, com direito a um lindo batom de brinde; tão lindo que você pensa seriamente em usar batom no dia a dia, contrariando uma secular preferência pela cor natural da boca.
Por que não congelar esse dia? Como fazer para guardar tal atmosfera mágica, cheia de encantos e predisposta a acertos? Simplesmente não dá, só é possível tirar proveito de cada instante. Esse dia passa, mas outros como este hão de vir, só precisamos de leveza e serenidade para aguardá-los. Enquanto eles não vêm - lembrando que eles só vêm espontaneamente, não adianta forçar - o ideal é saber aproveitar também os encantos dos dias menos mágicos, sem neuras. Meia-noite: hora de deixá-lo ir.

terça-feira, 3 de maio de 2016

1144km

Queria poder mexer no tempo e no espaço para ter você comigo agora. Queria um beijo seu, um abraço, um riso, um olhar mais demorado. Queria de volta a magia do tempo que congela para sermos só nós dois. Quero um reencontro eterno e uma partida que nunca venha.

Mas você teve que partir, voltar para o país dos seus compromissos. A propósito, o que dizer de um lugar que não conheço, mas do qual já gosto tanto? Sei que ele guarda você, e isso já me basta. É nele que você segue rindo, trabalhando e lembrando dos nossos dias juntos. Há um pedaço meu por perto. Isso me conforta.

Olho fotos das ruas e me imagino por lá com você. Finjo que não tem neve nem frio, então meu devaneio fica ideal. De mãos dadas ou entrelaçada no seu abraço, vejo tudo como deve ser. Ouço sons, então sorrio para o nada e para tudo. Devem ser os pássaros. Você diz que não são elas, mas insisto: quem nasce lá são mesmo as andorinhas.