quinta-feira, 15 de março de 2018

Manifesto pós-Coimbra


Estive, durante esses quase dois anos, morando em Coimbra. Em alguns momentos, senti-me como alguém que se afasta da própria realidade para fazer algo diferente; como quem vai viver no topo de uma montanha para repensar a vida. Durante esse tempo, vi um golpe mascarado de impeachment, vi sucessivas crises políticas, legais e judiciárias. Vi novos escândalos de corrupção e uma reforma trabalhista absolutamente desumana. E, graças às redes sociais e ao afastamento presencial, pude ver também a verdadeira face do Brasil. Confesso que não gostei do que vi.
Infelizmente, vi muitas pessoas defendendo políticos fascistas e regimes militares. Mais do que isso, vi muitos ligarem o “foda-se” para o povo brasileiro enquanto unidade populacional, que é o que deveríamos ser. Um tapa na cara da democracia. Uma traição à República e uma infeliz vitória do individualismo sobre a empatia.
Hoje eu vejo no Brasil o reflexo do que foi uma formação de um povo, na qual alguns aprenderam que para si cabe tudo, enquanto que para outros, paciência. É normal ter muito dinheiro sobrando, usar drogas ilícitas numa segura cobertura no Leblon e explorar os moradores das comunidades pobres as quais, se muito, eles só conhecem pelos nomes. Portanto, também é normal alguns passarem fome, ter chacina e tráfico de drogas na favela. Uma guerra civil provocada por eles, mas que, na hora de exercer seus podres poderes e amenizar os estragos que tanta ganância causa, eles lavam as mãos, sempre tão sujas de propinas e cargos públicos usurpados por décadas. 
Se sobra tanto nas contas bancárias dos políticos e do dono da JBS, um corrupto gigante da carne, é lógico que esta vai faltar na mesa de alguém. Quando sobra ego e poder para alguns, tem carência de dignidade para muitos. Tal como preconizado nos fundamentos das ciências econômicas, os recursos são escassos; se sobra de um lado, há de faltar em outro. Ou seja, o problema básico do Brasil está claro, e só não vê quem não quer; seja por conveniência, por ignorância ou por preguiça mesmo. A máxima da preguiça talvez seja lançar mão do tal “foda-se”, afinal.
À falácia da meritocracia, agora se alia também o discurso raso do vitimismo (na verdade, a acusação rasa de vitimismo). Discutir e estudar nossa realidade histórica não é vitimismo. Raciocinar acerca do racismo, tampouco. É triste ver adultos, muitos deles estudantes de universidades federais, proferirem frases que fariam corar alguns alunos do início do ensino médio. Muitos incapazes de fechar um silogismo ou de parar uns poucos minutos para refletir antes de massacrar o teclado. É triste imaginar essas pessoas criando outras, pois foi dessa forma que chegamos aonde estamos. Os que aprenderam que a maior parte do Brasil serve à sua estirpe sempre fizeram vista grossa às injustiças sociais. Defenderam com unhas e dentes os seus excessos, enquanto que impuseram à outra classe de povo, na qual eles não se enxergam, as sobras. Oras, mas quando se quer muito e se tem excesso, não há de se falar em sobra. Então, de sobra, só paciência mesmo. E uma força sobre-humana para sobreviver e passar seus genes adiante.
Tem sido assim por séculos. Essa referida classe, a que se acha dona do País, sempre ocupou e moldou o mercado financeiro e todas as esferas de poder. As regras do jogo são moduladas ao bel-prazer dos que sempre começaram ganhando. Enquanto que para a classe da paciência restam espasmos de resiliência, os quais a outra classe, com o seu cinismo característico, usa como exemplo aos “perdedores” de que há como vencer: basta querer. Então coroam o discurso absurdo com a abjeta acusação de vitimismo. E temos então a clássica propaganda enganosa, com direito a letras miúdas dizendo “requer sorte, provações desumanas e indignas, sangue de barata e não ser morto pela polícia”. Não sejam hipócritas: a outra face da resiliência é, decerto, o desperdício humano pela regra. 
O genocídio da população negra no Brasil não é ilusão. Quem dera fosse mesmo uma suposição, uma abstração baseada puramente na nossa estrutura social. Mas não é. Nosso idoso Código Penal, nosso sistema prisional falido e a jurisprudência estão aí para comprovar que não é. Prender e manter encarcerado preto é tão mais fácil e comum do que prender branco por simples obra do acaso? Por que tanta resistência em prender brancos ricos corruptos? Não é acaso, não é coincidência a pobreza, a indignidade e a desigualdade social incrementarem a incidência dos crimes patrimoniais, os quais são duramente punidos pelo Direito Penal. Repito, não é acaso, é pura construção social: as pessoas de outrora são a base para a construção das seguintes, isso é mais que lógico. Essa esfera do Direito que recai duramente sobre os 3Ps – pretos, putas e pobres – ainda persiste nesses moldes porque há eras determinaram que se manteria assim. Dou um doce se alguém provar que nosso inconsciente coletivo acerca do passado escravocrata do país nada tem a ver com isso.
Então, por conta do racismo institucional do Brasil, o branco sempre teve por onde se sobrepor ao negro. No mercado de trabalho, nas relações sociais, na mídia, nos espaços cotidianos e até nas relações afetivas. Se hoje estudo na Europa, em meio a tantos brasileiros brancos, essa gente tão fina, elegante e sincera, é tão-somente porque sou uma exceção. Aí volto a falar em resiliência (por parte de meus pais e avós, no mínimo), estabelecimento acertado de prioridades e, claro, alguma sorte. Como acontece há séculos (vide os incomparáveis Joaquim Maria Machado de Assis - https://brasil.elpais.com/…/…/cultura/1498045717_148849.html - e Affonso de Henriques de Lima Barreto - https://brasil.elpais.com/…/…/cultura/1498244164_829345.html), os filhos da mestiçagem ainda encontram uma brecha para estudar e se agarrar ao conhecimento, às possibilidades da educação como ferramenta de utilidade e sobrevivência digna no mercado de trabalho. Este é um dos poucos lugares sociais onde é possível sermos ouvidos antes de verem nossa cor, antes de determinarem de qual linhagem de povo brasileiro fazemos parte. A produção de conhecimento, já tão renegada, não pode se dar ao luxo de desperdiçar espíritos dispostos a zelar por ela; a necessidade de fomentá-la tende a prevalecer. Por isso que o mundo acadêmico, em regra, é diferente. Nele, ironicamente, é tudo preto no branco.

Obrigada, UC


Eu tinha 25 anos quando fui aprovada para estudar Direito na UFBA. Por hábito, fiz logo as contas de com quantos anos eu iria me formar. A grade normal do noturno leva 6 anos, e, ainda que eu tentasse pegar a mesma quantidade de matérias do diurno, só daria para pôr o capelo depois de fazer 30.
A princípio senti um desagrado, mas lógico que essa ideia de concluir a graduação na casa dos 20 era só um capricho. Ainda mais por eu já ser formada; terminei minha primeira graduação aos 21 anos. Mesmo assim, no fundo, eu queria que fosse possível. Como enfim não vi por onde, aceitei a ideia de ser uma formanda balzaquiana, dessa vez.
Só que uma coisa é certa: cuidado com o que você deseja, porque pode se tornar realidade. E somente hoje me dou conta que naquele dia não foi diferente. O universo fez questão de ouvir o meu silêncio e, tal qual uma mãe, viu um caminho muito inesperado para atender a esse meu capricho.
Então, justo agora, ironicamente dentro das minhas últimas semanas com 29 anos, concluo minha graduação em Direito na Universidade de Coimbra. Era só um capricho, verdade. Mas agora vejo que era um daqueles que têm muita graça quando são atendidos.

Que sirva de exemplo

“Que sirva de exemplo”. Oração simples no presente do subjuntivo expressando uma ordem. Uma frase que já foi dita em momentos históricos perversos, com a pretensão de se sobrepor, causar temor e exercer domínio. E ontem não foi diferente.
O prefeito de Salvador, durante uma coletiva de imprensa, foi traído pelas palavras ao exprimir sua intenção acerca da população soteropolitana. Só faltou dizer “bem feito”. Mas os olhares públicos tendem a refrear o sentimento sórdido que os políticos, essa elite cínica, têm do povo.
Nós sabemos exatamente o que ele e seus pares pensam sobre pobres, pretos e pessoas que vivem à margem da sociedade. Não é novidade, mas, para assegurar o sucesso nas urnas, eles fingem que não é nada disso que estamos pensando. Infelizmente, alguns, reprimidos pela falta de cidadania e pela ignorância, acabam por acreditar no espetáculo eleitoreiro. E fatalmente o neto ganha, garantindo a manutenção de seus privilégios por mais algumas gerações.
A detenção de um patrimônio incomensurável tem ligação direta com o fato de essa e tantas outras famílias terem sido condenadas a viver indignamente. Os recursos são escassos: se sobra de um lado, inevitavelmente vai faltar em outro. Para alguém ganhar tanto assim, muitos precisam perder, não tem jeito. E eles sabem disso. E desdenham da plebe, na privacidade de seus lares caros e bem edificados, cercados pelos seus.
“Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”. Pois lembremos do real significado das palavras proferidas pelo neto. Um ato falho que veio muito a calhar. Que as próximas eleições sirvam de exemplo para todos eles.

http://www.metro1.com.br/noticias/cidade/51230,infelizmente-que-sirva-de-exemplo-diz-prefeito-sobre-tragedia-de-pituacu.html