sábado, 1 de agosto de 2015

Do tronco ao poste

A questão social tem bastante peso em como o Brasil é hoje. A criminalidade que nos atinge mais visivelmente tem raízes na escravidão e de como ela foi abolida. Pobreza e falta de dignidade criam pessoas que não dão valor à própria vida; como esperar que elas deem algum valor à vida de qualquer outra pessoa? Ademais, não cabe a ninguém fazer justiça com as próprias mãos, por mais revoltante que seja presenciar um crime. O Estado está aí pra isso. Se não amarram corruptos poderosos em postes, então só posso achar que amarrar bandidos pés-rapados tem mais a ver com covardia do que com a sede por justiça. E outra: o que é crime ou não é questão de poder, não se iludam achando que é uma questão certinha, com a qual todos concordam.
Há pouco mais de um século, muitos escravos eram vistos como marginais, ainda mais que vários deles furtavam e tentavam assassinar seus senhores sempre que tinham a chance. Na época, isso era um crime punido com morte, não existia a ideia de que o escravo estava sendo abusado, espancado e que era humano se defender dos horrores da escravidão; o preto era criminoso e fim de papo. Mata. A menos que alguém entendesse que ele valia mais vivo por conta de quanto se pagou por ele (isso depois da proibição do tráfico, segunda metade do século XIX, deixando o escravo mais difícil de se conseguir). Ou seja, há uma semelhança de como a população olha o bandido marginalizado e como olhavam o escravo, que também se enquadrava, na visão da época, como um bandido marginalizado. Nasceu preto, sinto muito por ele, vai ser escravo e não pode se revoltar contra seus algozes.
Não mudou muito. E antes que falem das exceção, de pessoas resilientes que conseguem ser diferentes das que estão naquele ambiente, elas também existiam na época da escravidão, mas nem por isso a escravidão era correta ou justa. Pena que a maioria das pessoas não param para refletir acerca do tema, ou então preferem ficar no senso comum raso ao invés de exercitar o senso crítico.