Desde muito nova eu tentava escrever letras de músicas. Parecia simples: eu escrevia em rimas todas as coisas lindas e poéticas que eu queria que todos ouvissem e alguém que soubesse tocar algum instrumento musical transformaria minhas estrofes em canção. No dia que soube que não era esse o caminho, achei tudo tão ilógico e inalcançável que resolvi deixar isso de lado. Como assim eu deveria compor uma música antes da letra? Não fazia sentido pra mim.
Para mim, ritmo, afinação, instrumentos e tudo mais eram só uma maneira de seduzir o ouvinte para a letra da música pegá-lo de jeito; afinal, era exatamente isso que sempre me acontecia quando eu ouvia Marisa Monte, por exemplo. Talvez, se eu estudasse música ou tocasse algum instrumento, fizesse mais sentido a beleza e a complexidade de criar uma música ignorando totalmente a letra. Até me aventurei aos doze anos de idade nas teclas do piano, sem muito sucesso, mas minha vivência real com a música sempre veio através da dança e de suas contagens quaternárias e ternárias.
Fazendo um paralelo com a dança, em particular com o balé clássico, seria como se a música fosse a composição coreográfica, enquanto a letra é o que a dança quer dizer. Sim, há muitas coreografias sem história e tem muitas coreografias que são criadas para que, só depois de prontas, recebam o título, o significado. Acredito que seja mais ou menos o mesmo raciocínio com a música. Então faz sentido, mas, ainda assim, não deixa de ser inquietante.
No caso da dança, quando trabalhamos a criação artística tendo em foco o que queremos dizer, ela já nasce com toda a carga emotiva necessária para comunicar essa fala. É muito bom poder falar, mesmo que a beleza da arte diga que não é necessário fazê-lo. A pintura e a arquitetura já falaram tantas coisas úteis, por que ainda há quem repreenda as pessoas que colocam a fala em primeiro plano em outras artes? Sim, pinturas que comunicam o incomunicável é interessante, mas olhar a coroação de Napoleão emoldurada traz um prazer indiscutível. E comunica.
Sei que não tenho muita prioridade para tratar desse tema, mas como hoje é Dia do Compositor, tomei a liberdade de fazê-lo. Talvez seja uma forma de expor meu desejo adormecido de escrever uma canção do nível de “Cecília”, do simpático compositor Luiz Cláudio Ramos com Chico Buarque. Ou talvez eu tenha enxergado partituras nas linhas do meu caderno. Vai saber.
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