quarta-feira, 2 de março de 2011

Cada corpo é um mundo

Eu vi um corpo no caminho. Na verdade, não vi, ele estava guardado em um tipo de capa, no chão. Policiais em volta, armados, um carro da polícia parado no fim do viaduto. E lá jazia o corpo, sem vida ou atenção. Era apenas mais um corpo para os policiais, calejados de crimes e tragédias. Provavelmente estavam pensando no jantar, no banho ou no jogo que talvez fosse passar; não na existência que já não havia aos pés deles.

Era apenas mais uma vida que ia, como outras bilhões ou trilhões que já se foram ao longo dos tempos. Mas cada vida é única, aquela era um universo, e deve ser o mundo de outras pessoas, de uma mãe ou um filho. Era um mundo que findava, aos pés dos homens armados, à indiferença ou curiosidade dos que passavam. Para muitos era um corpo que quebrava o tédio, que posava no chão atrevido, atrapalhando a passagem, dando trabalho, alterando a vivacidade do ar. Como ousa morrer em plena segunda-feira, em horário de pico? Quem será? Quando iriam saber que já não estava mais por aqui, vivendo? Quem sentiria falta, o mundo de quem estaria prestes a ruir?

A morte em si é um limite cruel, uma lembrança de um fim contra o qual tentamos fugir, mas cujo encontro com ele é tão certo quanto a vida. Recordamos que um dia é nossa hora e não temos controle sobre isso. Pensamos na hora em que alguma morte vai nos matar em vida, em alguma perda absurdamente dolorosa a qual talvez tenhamos que enfrentar ou enlouquecer.

Penso então no absurdo da vida, tão cheia de tudo, mas igualmente efêmera. Ela nos escapa e não nos damos conta, tudo está passando, cada um indo embora levando seus mundos e mundos alheios. Passo próximo ao viaduto 20 minutos depois, mas não tem mais corpo nem policiais. Nem parecia que um mundo havia acabado, bem ali, no asfalto.

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