terça-feira, 7 de dezembro de 2010

É minha só

Quando queremos conceder uma individualidade para algo, um valor único, damos um nome. Seja um bicho de estimação ou uma boneca de papel, quando queremos que seja especial, nós nomeamos. Um passarinho que visita nossa varanda sempre no mesmo horário é bem mais especial quando se chama Arthur. Falamos de Arthur, dizemos que ele cantou mais hoje, olhamos para ele e pensamos: “Arthur nunca falha, está mesmo todos os dias aqui, no mesmo horário”. Quando tem nome, cativam-nos.
O mesmo acontece com os sentimentos. Dizer que algo dói tem menos impacto do que chamar de dor e falar sobre ela. Sabe aquele fogo que arde sem se ver? Se ele fosse um verbo, não conseguiríamos ser tão específicos. “Estou amando e é fogo que arde sem se ver”. Passe gelo e Bepantol, ora bolas.
Mas todo mundo tem a mesma dor e o mesmo amor? Creio que não. Tem o mesmo nome, mas, para cada um, é único. Se é minha, já tem outro sentido, ainda que tenha o mesmo nome. Nasce em nós e, como somos idênticos em nossa qualidade de sermos únicos, então o resultado de cada sentimento é único. Simples. E nada de verbos, verbos indicam ação, e os sentimentos estimulam as ações, não as são.
Não entendo como até hoje as outras línguas não adotaram a palavra “saudade”. É um tal de ‘miss you’ e ‘me manque’ que, para mim, não atende muito bem à magnitude desse sentimento que, sim, tem nome. Se o amor não tivesse nome, não estaríamos até hoje querendo saber o que ele é exatamente. Nomeou, então representou e, como somos seres lógicos, queremos saber o que ele é. Não diga que ama, fale desse tal amor e me roube o coração. Fale da tal saudade e tenha a minha alma.
Sinto saudades diferentes e preciso chamar cada uma pelo devido nome: Saudade de Meu Irmão, por exemplo, tem vivido bastante em mim. E cada saudade que eu tenho tem um nome e vai muito bem, obrigada. Elas são parte de mim. Agora tenho que ir: daqui a pouco Arthur aparece, vou para perto da varanda aguardá-lo. Enquanto isso, a Saudade dele está aqui, guardadinha, esperando um singelo canto para adormecê-la.

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